A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) apresentou hoje uma nova edição de seu relatório anual Estudo Econômico da América Latina e do Caribe 2026. Crescimento e produtividade num contexto de alta informalidade: fatores limitantes e desafios para impulsionar a formalização produtiva na região.
O relatório indica que a economia regional cresceria 2,2% em 2026, após expandir-se 2,4% em 2025, e registraria uma recuperação parcial de até 2,5% em 2027. Caso essas projeções se confirmem, a América Latina e o Caribe completariam cinco anos com um crescimento médio próximo a 2,3%, uma taxa insuficiente para elevar de forma sustentável a renda per capita, eliminar as disparidades de desenvolvimento e ampliar significativamente os espaços de ação política.
Além disso, o relatório destaca que a deterioração do contexto internacional — marcada por um menor crescimento mundial, maiores tensões geopolíticas, volatilidade financeira e pressões nos mercados de energia — explica parte da desaceleração prevista para 2026. No entanto, o relatório alerta que a principal limitação ao crescimento regional é de natureza estrutural: baixos níveis de investimento, escasso crescimento da produtividade, menor dinamismo na geração de empregos formais e um alto e persistente nível de informalidade no mercado de trabalho.
“A região conseguiu preservar avanços importantes em matéria de estabilidade macroeconômica, mas essa estabilidade deve se tornar uma plataforma para crescer mais e melhor. Para superar a armadilha da baixa capacidade de crescimento, precisamos aumentar o investimento e a produtividade e, ao mesmo tempo, avançar rumo a uma formalização produtiva que fortaleça as capacidades das pessoas e das empresas, amplie a proteção social e gere mais empregos formais de qualidade”, afirmou o Secretário-Executivo da CEPAL, José Manuel Salazar-Xirinachs.
Crescimento baixo em uma nova era geopolítica
Ao longo de 2025, a região demonstrou resiliência diante de um cenário internacional reconfigurado e marcado por elevada incerteza. O PIB regional cresceu 2,4%; a inflação continuou convergindo para as metas dos bancos centrais, o emprego continuou se expandindo, embora com menor dinamismo, e os salários reais mantiveram sua recuperação. Ao mesmo tempo, o déficit em conta corrente manteve-se em um nível moderado, equivalente a 1,2% do PIB regional, e as entradas líquidas de capital favoreceram a acumulação de reservas internacionais.
Para 2026, espera-se uma desaceleração da economia global, com um crescimento de 2,9%, a taxa mais baixa desde 2022. As rivalidades geopolíticas e a interrupção no abastecimento de energia elevaram os preços do petróleo, dos fertilizantes e do transporte, enquanto a persistência de taxas de juros internacionais relativamente altas e a valorização do dólar podem tornar mais restritivas as condições de financiamento para as economias emergentes.
Em nível regional, a CEPAL projeta um crescimento da América Latina e do Caribe de 2,2% em 2026 e de 2,5% em 2027, com uma acentuada heterogeneidade em nível sub-regional. A América do Sul cresceria 2,5% tanto em 2026 quanto em 2027. Na América Central, o crescimento seria de 1,6% em 2026 e de 2,8% em 2027. Esse resultado é influenciado pelas contrações previstas para Cuba e o Haiti. Se excluirmos essas duas economias, a média sub-regional seria de 4,0% para 2026 e de 4,2% para 2027. O Caribe cresceria 5,6% em 2026 e 7,9% em 2027, impulsionado por um forte crescimento na Guiana; sem incluir esse país, a média sub-regional seria de 1,1% em 2026 e de 2,2% em 2027.
A inflação permaneceria contida, embora sua convergência para as metas fosse mais lenta. O recente choque de preços concentrou-se principalmente na energia e nos fertilizantes, com uma transmissão para os alimentos mais limitada do que em episódios anteriores. No entanto, os maiores custos energéticos poderiam atrasar novas reduções nas taxas de política monetária. Nesse cenário, a CEPAL destaca a importância de preservar a credibilidade monetária e utilizar ativamente as ferramentas macroprudenciais para mitigar os riscos financeiros.
No âmbito do mercado de trabalho, o número de pessoas empregadas aumentou 1,6% em 2025 — cerca de 4,3 milhões de empregos —, mas o ritmo de criação de empregos desacelerou pelo terceiro ano consecutivo. A taxa de desemprego diminuiu para 5,3% e o trabalho informal continuou a diminuir, embora ainda abranja cerca de metade das pessoas empregadas. Os indicadores do início de 2026 confirmam uma expansão mais moderada do emprego e mostram que a possibilidade de sustentar as melhorias no mercado de trabalho dependerá cada vez mais de aumentos no investimento, na produtividade e no crescimento.
No âmbito fiscal, a estabilização da dívida pública bruta em torno de 52% do PIB na América Latina não foi suficiente para reconstruir o espaço fiscal. O baixo crescimento, o alto custo do financiamento e o aumento do pagamento de juros limitam os recursos disponíveis para elevar o investimento público, a proteção social e acelerar a transformação produtiva. No Caribe, a dívida pública bruta situou-se em cerca de 73% do PIB em 2025, o que também reforça as mesmas limitações para promover um desenvolvimento mais produtivo, inclusivo e sustentável.
A informalidade enfraquece a capacidade do crescimento de elevar a produtividade
A segunda parte do Estudo Econômico 2026 examina a informalidade não apenas como um problema trabalhista ou de proteção social, mas como uma restrição estrutural que limita a capacidade das economias de transformar o crescimento em aumentos sustentáveis de produtividade, investimento e emprego de qualidade. A informalidade é, ao mesmo tempo, uma consequência do baixo crescimento e um dos mecanismos que perpetuam a armadilha da baixa capacidade de crescimento.
As evidências históricas mostram que os maiores avanços na formalização ocorreram entre os anos de 2000 e 2013, que foi o período histórico mais recente de maior crescimento econômico, altas taxas de investimento, aumentos de produtividade e uma expansão do emprego assalariado formal. Esse processo perdeu dinamismo a partir de 2014, juntamente com a desaceleração do investimento e a estagnação da produtividade. Atualmente, cerca de metade das pessoas ocupadas na região continua trabalhando em atividades informais.
A análise apresentada no relatório mostra que o crescimento eleva a produtividade tanto no setor formal quanto no informal, mas seus efeitos são mais intensos, rápidos e persistentes no primeiro. As empresas formais têm maior capacidade de aproveitar economias de escala, incorporar inovação, acessar financiamento e acumular capacidades produtivas. Por isso, quanto maior for o peso da informalidade, menor será a capacidade do crescimento de gerar melhorias permanentes na produtividade.
Formalização produtiva: uma estratégia integral para crescer mais e melhor
Diante desse diagnóstico, a CEPAL propõe o desenvolvimento de estratégias para impulsionar a formalização produtiva na região. O conceito se refere a um processo em que o aumento da formalidade é acompanhado pelo fortalecimento das capacidades produtivas das pessoas e das empresas, por aumentos de produtividade e por uma transformação produtiva capaz de sustentar um crescimento mais dinâmico e inclusivo. Essa abordagem vai além das reformas regulatórias ou dos incentivos administrativos isolados e exige coerência e complementaridade entre as políticas trabalhistas, tributárias, financeiras e de desenvolvimento produtivo.
O relatório identifica quatro áreas complementares de ação:
- Políticas trabalhistas: aprofundar os programas de geração de empregos, capacitação e inserção no mercado de trabalho; reduzir as desigualdades de gênero; articular melhor as políticas trabalhistas e sociais; e fortalecer a economia do cuidado e o uso de ferramentas digitais para facilitar o acesso e a permanência no setor formal.
- Políticas fiscais: avançar em direção a sistemas de financiamento da proteção social que reduzam os desincentivos à formalidade; estabelecer trajetórias de formalização progressivas e flexíveis; e aproveitar a digitalização e a interoperabilidade administrativa para simplificar o cumprimento das normas e fortalecer a fiscalização.
- Políticas financeiras: reforçar o papel dos bancos de desenvolvimento como instrumento de inserção produtiva; estabelecer mecanismos que reconheçam a heterogeneidade do tecido empresarial e ampliar os sistemas de garantias para reduzir a segmentação do crédito.
- Políticas de desenvolvimento produtivo: fortalecer e ampliar percursos integrados de apoio empresarial, com ênfase na extensão tecnológica; focalizar territorialmente as intervenções; promover uma governança antecipatória e multissetorial, bem como a integração produtiva, e fortalecer os sistemas de informação, monitoramento, avaliação e aprendizagem.
A CEPAL conclui que reduzir a informalidade é uma condição necessária para fortalecer a capacidade de crescimento da região e sair da armadilha da baixa capacidade de crescimento. A formalização da produção permitiria melhorar a qualidade do emprego, ampliar a proteção social e reduzir as desigualdades, bem como aumentar a capacidade das economias de transformar o crescimento em avanços sustentáveis de produtividade, ampliar o espaço para políticas públicas e consolidar processos de transformação produtiva que sustentem taxas mais altas de crescimento no longo prazo.
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