Por Gerson Gomes e Carlos Antônio Silva da Cruz

INTRODUÇÃO

A nova forma de apresentação dos dados utilizada na presente edição está baseada na ideia de agrupá-los em blocos de problemas/desafios cuja permanência ao longo do tempo constitui um rasgo característico da economia brasileira e pano de fundo do movimento de avanços e retrocessos ocorrido durante os últimos 31 anos. Esse movimento é expressão e desdobramentos daquilo que Celso Furtado, analisando a realidade e as perspectivas da economia brasileira nos anos 90 do século passado, chamou, com clareza e propriedade, de “construção interrompida”.

Referia-se Furtado ao esforço de construção, a partir dos anos 30 e intensificado no pós-guerra, de um sistema econômico nacional, alicerçado no desenvolvimento industrial e na intervenção estatal de promoção e planejamento do desenvolvimento econômico e social, que abriria caminho para a superação dos problemas estruturais do país. Problemas que, na sua maior parte, trazem em seu DNA as marcas da matriz de nossa formação histórica, caracterizada pela inserção subordinada na economia internacional e a especialização primária-exportadora a ela associada, pelo sistema de organização da produção baseado no grande latifúndio e na escravização da força de trabalho e pelo caráter autoritário e elitista do sistema político que embasou esse modelo, inclusive depois da ruptura do pacto colonial.

Para Furtado, essa construção teria sido interrompida pelo avanço das políticas neoliberais baseadas na abertura e desregulamentação da economia, fortalecimento do livre-mercado, redução do papel do Estado no domínio econômico e
financeirização da economia mundial com livre movimentação dos fluxos de capital que levaram ao aumento da instabilidade e das incertezas quanto ao futuro do Brasil e dos países de menor desenvolvimento relativo.

O livro de Furtado foi publicado em 1992, no auge da ofensiva neoliberal, que prometia, além do fim da história, a inauguração de uma era de paz, prosperidade e liberdade para todos. Um olhar retrospectivo sobre a evolução da economia mundial nas últimas décadas e, particularmente, sobre a tendências políticas dominantes na atualidade mostra uma realidade bastante diferente desse prognóstico. A pobreza e a desigualdade social aumentaram, o baixo crescimento econômico tornou-se padrão, degradaram-se as condições de trabalho e a proteção social dos trabalhadores, naturalizou-se a guerra e o desrespeito a direitos e conquistas civilizatórias e recrudesceram as ameaças à democracia e ao estado de direito.

O caso brasileiro ilustra como a dificuldade política de ruptura da hegemonia neoliberal e construção de um modelo alternativo de organização e gestão da economia coloca os governos não comprometidos com ortodoxia dominante em uma camisa de força que limita o alcance, a profundidade e a continuidade de suas políticas. Isso dá origem a um quadro contraditório de avanços limitados e retrocessos que remete às angústias e incertezas assinaladas por Furtado e, no marco do contexto geopolítico atual, torna mais complexa e árdua a tarefa de construção de um projeto nacional rumo a uma sociedade mais próspera, justa e democrática no Brasil

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Crescimento Econômico e Transformação Produtiva